quarta-feira, 15 de junho de 2011

Comunicação e poder: A batalha pelas mentes

O ex-prefeito do Rio, Cesar Maia, estudioso do marketing político, publicou no último dia 11 em sua coluna na Folha de São Paulo artigo baseado no livro de Manuel Castells, “Comunicación y Poder”. Castells é um sociólogo espanhol ícone das pesquisas em comunicação política, sendo um dos autores mais citados na área.
Em seu livro, Castells aborda a “mudança da política pela transformação da comunicação”. Citando outros cânones do estudo da comunicação, como Herbert Marshall McLuhan (autor das expressões “impacto sensorial”, “o meio é a mensagem” e “aldeia global”), e John Thompson (autor da Teoria Social do Escândalo Político), Castells relata que a batalha pelas mentes ocorre por meio da comunicação, enquanto instrumento da construção do poder no campo da opinião pública. Um tanto óbvio, mas de fundamental importância para o entendimento da ciência do marketing político.
Abaixo o artigo de Cesar Maia na íntegra e o vídeo da palestra de Manuel Castells em que apresenta sua obra “Comunicación y Poder”. 

Indignados - Por Cesar Maia - Reproduzido da Folha de São Paulo de 11/06/2011
 Manuel Castells apresentou, em 2009, seu livro "Comunicación y Poder" numa conferência na Universidade Complutense de Madri. Trata da mudança da política pela transformação da comunicação.
 A construção do poder é a capacidade de atores sociais influenciarem outros, de maneira a reforçar o seu poder. Onde há poder existe contrapoder ou resistências às relações institucionalizadas.
 A batalha pelas mentes se joga na comunicação. Não é o Estado, e sim a comunicação, o instrumento básico de construção do poder. Castells diz que a emoção fundamental é o medo, que elimina o espírito crítico e foca, nos indivíduos, a busca por proteção.
 A informação que reforça o que uma pessoa pensa tem seis vezes mais probabilidade de ser registrada. Por isso, a imprensa vai atrás da opinião que as pessoas já têm. A comunicação cria o campo das mudanças na opinião pública. Isso não quer dizer que se siga a mídia − que constrói os espaços públicos. As pessoas opinam sobre o que é divulgado.
 Informações omitidas pela mídia restringem o espaço público do debate. A audiência é ativa, mas se dá no espaço público do que é divulgado. Grave é o que a mídia omite.
 Política sem comunicação de massa não chega ao público. A mídia não é detentora de poder, mas formadora dos espaços onde se constrói o poder. A comunicação política requer mensagens simples e poderosas. O mais simples é o rosto humano. O mais poderoso é a confiança.
 A estratégia fundamental na disputa pelo poder é destruir a confiança numa pessoa ou num partido. Quem não participa de tal jogo não está na política.
 Essa disputa é a política do escândalo. São batalhas pelo poder simbólico onde se joga reputação e confiança. Mas o excesso gera fadiga do escândalo que termina igualando a todos e desprestigiando o sistema político. A correlação entre corrupção percebida e descrédito nos políticos é clara.
 Hoje, o jogo do poder depende também das novas mídias, via internet e celular, que são redes horizontais ou autocomunicação de massa.
 O sistema se abre a mensagens de todo tipo, individuais e de movimentos sociais. Estes atuam sobre valores sem objetivar o poder, e estão fora da sociedade civil organizada.
 Aqui surgem práticas políticas insurretas, movimentos espontâneos dos indignados, que até desestabilizam governos. Passam por cima dos partidos e das regras do jogo. É a cultura da indignação. Os indignados que não atuavam na política entram no jogo.
 O espaço público está sendo reconstituído fora das instituições. As condições de mudança se produzem nesse novo espaço da comunicação. É a sociedade fora dos partidos e dos sindicatos. Esse é o mundo do poder e da mudança.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Há campanha sem recursos financeiros?

Uma campanha eleitoral necessita de recursos humanos, materiais e financeiros. Dentre esses, o financeiro é o mais importante por ser precedente aos demais. Mesmo a mais idealista das campanhas precisa de dinheiro para se viabilizar. A frase é forte, impiedosa e categórica, pois afronta a visão romântica de política, trazendo-a das alturas dos ideais para o mundo dos interesses materiais. Não se trata, porém, de contrastar a política do ideal contra a política do interesse.
Mesmo a mais idealista das candidaturas necessita de recursos financeiros para se viabilizar, assim como a campanha mais interesseira necessitará de uma mensagem nobre para vencer.
A raiz da questão, impossível de ser ignorada, é o fato de que qualquer campanha eleitoral tem custos. Sem meios financeiros para cobrir esses custos, não há campanha, ou, na melhor das hipóteses, não conseguirá superar o modesto estágio inicial, realizado por parentes e amigos, de maneira amadora.
O dinheiro tem o poder de converter-se em recursos de campanha (publicidade, transporte, contratação de profissionais, pesquisas, comitês, apoio ao trabalho de voluntários, etc). Somente com dinheiro a maioria das necessidades da campanha poderá ser provida. Além disso, uma campanha moderna e profissionalizada não dispensa a contratação de especialistas, que demandam investimentos. Por essa razão, é indispensável.
Dessa forma, levantar fundos para financiar a campanha, assim como planejar os gastos, são as primeiras atividades mais importantes de qualquer campanha, pela simples razão de que tudo o mais que se pretenda fazer vai depender da existência ou não de recursos. Dinheiro não ganha eleição, mas sem dinheiro não há campanha.
O dinheiro é o oxigênio da campanha eleitoral. Na falta dele, tudo o mais entra em colapso. Aliás, um dos sinais visíveis de que uma campanha "começou mal" é a falta de recursos para bancar as despesas iniciais.
Contudo, que fique bem claro, muito dinheiro não salva um candidato ruim, com uma campanha ineficiente que, desprovida de estratégia, aplique mal os recursos que dispõe. Embora pouco dinheiro faça milagres com um bom candidato em uma campanha competente. Neste caso, a quantidade de dinheiro a gastar é menos importante que como se gastar.  Exemplos de sobra confirmam tais afirmativas.
Uma campanha, pois, não precisa ser rica para ter sucesso. O que importa é contar com os recursos necessários para financiar sua estratégia política e comunicacional. Disputar uma campanha sem recursos é, portanto, uma forma de perder a eleição por antecipação. Não há campanha sem custos, daí a advertência que "sem dinheiro, melhor nem tentar".

(Adaptado de politicaparapoliticos.com.br – Em “Campanha”)